sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Brasil ou a Copa?

Li com muita atenção o texto escrito por Jorge Luiz Souto Maior, que circula pela rede com grande repercussão. Souto Maior é juíz, professor de direito, especialista em justiça do trabalho. Sua justa indignação escorre de cada linha e levou-o a escrever um verdadeiro tratado sobre a Copa do Mundo e suas barbaridades. O jornalista Juca Kfouri publicou o artigo em seu blog, com destaque. São onze teses, como onze jogadores em um campo. Onze são também as famosas teses escritas por Karl Marx em seu clássico capítulo sobre Feuerbach, na "Ideologia Alemã", em 1845. No texto de Souto Maior há mesmo um vocabulário marcadamente marxista, e um tanto "enrijecido" para os tempos do valor pulverizado e de outras questões, digamos assim, contemporâneas. Há frases ali, como esta: "(...) toda riqueza provém do trabalho". É um princípio clássico do marxismo clássico. Mas vá lá. Não importa fazer polêmica ou seminário sobre isso. O texto é forte, lúcido e cidadão. Não há dúvida. Sua indignação é estruturada e contagiante. O problema fundamental do texto, ao meu ver, é que todos os absurdos "copísticos", justa e devidamente apontados por Souto Maior, não parecem absurdos "específicos" da Copa. Têm a ver com as mazelas de sempre, de um país que se arreganha sem brio, de uma classe política comerciante, de um mercado de trabalho selvagem e ainda escravista. Esse mercado, aliás, não explora somente o chamado "operário", aquele da construção civil, cantado por Vinícius de Moraes em seu poema épico, "Operário em construção". Ele explora tudo e todos, na precariedade geral, na informalidade, no descarte, na inserção desigual etc etc etc. Às vezes me pego pensando que a Copa é apenas um "evento qualquer", um fato que veio mostrar, escancarar – de novo – nosso nível de avacalhação e indigência social generalizada. Um fato que veio mostrar – de novo – os modos estúpidos com os quais nos tratamos, haja Copa ou não haja Copa: os modos com os quais tratamos a nossa pobreza (urbana ou rural), fazemos circular o dinheiro entre poucos e vendemos nossas instituições por qualquer troco. Muito embora as vilanias da Copa do Mundo estejam cada vez mais ululantes, não gosto das análises que exageram essas vilanias porque, muitas vezes, acabam funcionando ao contrário. Deixam parecer que éramos uma sociedade paradisíaca até termos a infeliz ideia de fazer uma Copa. Falando em Karl Marx, dizem com muita frequência que, na Alemanha, a Copa de 2006 correu de maneira mais branda porque os alemães são em tese mais organizados do que nós em matéria de contas públicas e construção civil. Por isso, dizem, a Copa entre os alemães foi apenas um evento para quem gosta de futebol, não foi essa calamidade tão ampla e vexatória pela qual estamos passando. Não tenho como medir, mas andei pela Alemanha nos últimos anos, e tendo a acreditar. Mas uma Copa no Brasil… De que modo uma Copa no Brasil poderia ser feita, se não à brasileira? Por isso me pergunto muitas vezes, em face das polêmicas que se avolumam: qual é afinal o nosso maior problema? A Copa ou o Brasil ele mesmo? Por José Guilherme Ultrapop

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